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Campo Largo,sexta-feira, 17 de julho de 2026
Geral
Três gerações contam como as férias de julho mudaram em Campo Largo
As férias escolares começa-
ram nesta semana para os es-
tudantes da rede municipal de
ensino de Campo Largo. Com
o retorno às salas de aula pre-
visto para o dia 27 de julho,
muitas crianças devem apro-
veitar os próximos dias com
passeios no Parque Newton
Puppi, sessões de cinema, tar-
des jogando videogame e mo-
mentos de brincadeira com a
família e os amigos.
Mas o recesso escolar nem
sempre foi sinônimo de des-
canso e lazer. Há mais de meio
século, durante o mês de ju-
lho, o período das férias era
muito diferente do que o vi-
venciado hoje em dia. O tem-
po livre das crianças era ocu-
pado principalmente pelas ta-
refas na roça.
Em uma mesma família,
três gerações ajudam a contar
como a infância acompanhou
as transformações de Campo
Largo. Entre lembranças da la-
voura, brincadeiras na rua e os
desafios trazidos pelas novas
tecnologias, as histórias mos-
tram uma cidade que cresceu,
mudou seus costumes e ampliou
suas formas de lazer, mas mante-
ve algo presente em todas as
épocas: as memórias constru-
ídas durante a infância.
“NÓS NÃO TIVEMOS
INFÂNCIA. SÓ
TRABALHAMOS.”
A frase de Eliza Razera
Boaron, de 77 anos, não car-
rega revolta nem nostalgia. Ela
representa a lembrança de uma
realidade compartilhada por
muitas crianças que cresceram
na zona rural de Campo Lar-
go nas décadas de 1950 e 1960.
Filha de uma família com qua-
tro irmãos, Eliza aprendeu
cedo que todos tinham uma
função dentro de casa. Quan-
do as aulas terminavam, come-
çava outra rotina. Era preciso
descascar milho para alimen-
tar as criações, cortar pasto, ra-
char lenha e ajudar os pais no
que fosse necessário durante
o tempo livre.
Ao lado dela, o marido,
Benjamim Boaron, de 84 anos,
compartilha lembranças seme-
lhantes. Nascido e criado na
Colônia Mariana, em uma fa-
mília de sete irmãos, ele tam-
bém conheceu cedo a rotina da
roça. Enquanto os adultos tra-
balhavam, as crianças ajuda-
vam como podiam.
As poucas brincadeiras pre-
cisavam caber nos intervalos
do trabalho. Eliza lembra que
um dos únicos momentos de
diversão era quando brincava
com um velocípede de três
rodas, que pertencia ao irmão
mais novo. Os dois tentavam
se equilibrar no brinquedo ao
mesmo tempo, até que, depois
de tanto uso, o velocípede aca-
bou quebrando.
Entre todas as lembranças
da infância, uma continua es-
pecialmente viva para Eliza.
Ainda menina, ouviu da tia a
promessa de que ganharia uma
boneca. Passou dias esperan-
do o presente. Chegou a dor-
mir na casa da parente, imagi-
nando como seria brincar com
o brinquedo que tanto deseja-
va. A boneca nunca chegou.
“Eu queria tanto uma bone-
ca... Nunca ganhei uma bone-
ca”, lembra. Hoje, ao ver os
netos cercados de brinquedos,
ela não lamenta a infância que
teve, e reconhece que aquela
era a realidade de muitas famí-
lias do campo.
Eliza estudou na Escola
Caetano Munhoz da Rocha,
localizada na Estrada da Sereia,
no bairro Rondinha. Já Benja-
mim frequentou uma escola
localizada na Colônia Mariana,
que hoje não está mais em fun-
cionamento. Mais de seis dé-
cadas depois, Eliza ainda guar-
da o diploma escolar. O docu-
mento é uma das poucas lem-
branças materiais daquele tem-
po, anos em que estudar era
um privilégio para poucas cri-
anças.
Em casa, a mãe não sabia
ajudá-la com as lições. Era o
pai quem, depois de um dia
inteiro de trabalho, se sentava
ao lado da filha para ensinar a
leitura que a professora cobra-
ria na manhã seguinte. “Pai, me
ensine a lição”, ela pedia. E ele,
lembra Eliza, sempre teve pa-
ciência. Graças a esses mo-
mentos, chegava à escola pre-
parada para recitar o conteú-
do diante da turma. Décadas
depois, essa ainda é uma das
recordações mais carinhosas
que guarda da infância
Os estudos, porém, termi-
naram cedo para os dois. Eli-
za e Benjamim estudaram ape-
nas até a 4° série. Como acon-
tecia com muitas famílias da
época, permanecer na escola
era difícil. A necessidade de
ajudar os pais falou mais alto.
“Foi a vida da gente”, resume
Eliza, com a serenidade de
quem aprendeu a enxergar a
própria infância sem ressenti-
mentos.
As “viagens” ao Centro de
Campo Largo também eram
acontecimentos. Quando
aconteciam, começavam cedo,
com os cavalos preparados
para puxar a carroça pelas es-
tradas de chão. Chegar à cida-
de era quase um passeio. Ben-
jamim ainda descreve com fa-
cilidade a Campo Largo da-
queles anos. Havia poucos ar-
mazéns, duas panificadoras co-
nhecidas, apenas dois postos
de combustível e quase ne-
nhum automóvel circulando
pelas ruas. As carroças dividi-
am espaço com os poucos ve-
ículos, e praticamente todos se
conheciam pelo nome.
A INFÂNCIA DA FILHA:
QUANDO A RUA ERA O
QUINTAL
Décadas depois, a filha do
casal viveria férias completa-
mente diferentes. Lucimara do
Rocio Boaron, de 42 anos,
cresceu quando Campo Largo
já começava a se expandir, mas
ainda preservava o ritmo tran-
quilo de cidade do interior. As
manhãs das férias começavam
diante da televisão, assistindo
aos desenhos. Depois do café,
bastava atravessar o portão
para encontrar os amigos da
vizinhança. “A gente brincava
muito na rua”, lembra.
As tardes passavam entre
partidas de queimada, alerta,
elefante colorido, bicicleta e
vôlei com rede improvisada.
Os carros ainda eram poucos,
os pais conheciam todas as cri-
anças da rua e a calçada funci-
onava como uma extensão do
quintal. As férias não incluíam
grandes viagens nem uma pro-
gramação cheia de atrações.
Os programas mais esperados
eram simples.
Um deles, recorda Lucima-
ra, acontecia durante a Nove-
na de Nossa Senhora da Pie-
dade. Depois da celebração, a
família seguia para comer pas-
tel. O ritual se repetia todos os
anos e acabou se transforman-
do em uma das lembranças
mais queridas da infância. “A
atração era ir na Novena da
Piedade. Ficava ansiosa para
acabar e irmos comer pastel”,
conta, sorrindo.
ENTRE TELAS E
NOVAS
POSSIBILIDADES
Hoje, formada em Pedago-
gia e mãe dos gêmeos Pietro
Boaron Franqueto e Valenti-
na Boaron Franqueto, de 6
anos, Lucimara percebe que os
filhos crescem em uma reali-
dade muito diferente daquela
em que viveu na década de 90.
Parque, cinema, eventos cultu-
rais, restaurantes e novos es-
paços de lazer passaram a fa-
zer parte das férias das famíli-
as campo-larguenses.
Se a cidade passou a ofere-
cer mais opções de lazer, tam-
bém trouxe um desafio que
não fazia parte da infância de
Lucimara. Ela relata que a in-
fância acontece de outra for-
ma. Se antes bastava abrir o
portão de casa para encontrar
os amigos da vizinhança, ago-
ra as brincadeiras dependem
de um ambiente considerado
seguro. O movimento intenso
de veículos e o receio das fa-
mílias com a violência fizeram
as ruas deixarem de ser o prin-
cipal espaço de encontro en-
tre as crianças.
Aos poucos, bicicletas, par-
tidas de queimada, e outras
brincadeiras tradicionais passa-
ram a dividir espaço, e, muitas
vezes, a dar lugar, aos celula-
res, tablets e videogames.
“Todo dia tem que desenvol-
ver alguma atividade, porque,
senão, eles só querem ficar na
tela”, afirma.
Para Lucimara, essa trans-
formação não termina quan-
do acabam as férias. Ela tam-
bém aparece dentro da sala de
aula. Segundo ela, muitos alu-
nos retornam das férias mais
dispersos e com dificuldade de
concentração, comportamen-
to que ela relaciona ao tempo
prolongado diante das telas
durante o recesso. Para ela, um
dos desafios das famílias é en-
contrar um equilíbrio entre a
tecnologia e as experiências
que marcaram a infância de ge-
rações anteriores, quando
brincar na rua fazia parte da
rotina das férias.
Enquanto a mãe fala, Pie-
tro e Valentina aguardam a vez
de responder sobre suas ativi-
dades favoritas para as férias.
As respostas são rápidas. Mi-
necraft. PlayStation. Lego.
Bonecas. Parque. Cinema. É
um vocabulário que certamen-
te soaria estranho para os avós
quando tinham a mesma ida-
de. Ainda assim, existe algo
que aproxima as três gerações.
A expectativa pela chegada das
férias continua exatamente a
mesma.
Se antes julho significava
acordar cedo para ajudar na
lavoura, depois passou a ser
sinônimo de brincar na rua até
anoitecer e, hoje, reúne passei-
os, tecnologia e diferentes op-
ções de lazer. Ao longo da con-
versa, ninguém afirma que
uma infância foi melhor do
que a outra. Os avós demons-
tram orgulho ao perceber que
os netos vivem oportunidades
que eles nunca tiveram. Luci-
mara procura oferecer aos fi-
lhos experiências que também
se transformem em boas lem-
branças, ainda que em um con-
texto completamente diferen-
te. E as crianças escutam, en-
tre curiosidade e surpresa, his-
tórias de uma Campo Largo
onde se ia ao Centro de carroça,
uma escola desapareceu com o
passar dos anos e férias significa-
vam vestir a roupa de trabalho.
A cidade cresceu. As estra-
das de chão deram lugar ao
asfalto. Novas escolas surgi-
ram enquanto outras ficaram
apenas na memória de antigos
alunos. O Parque Newton Pu-
ppi passou a reunir famílias
nos fins de semana, e parte das
brincadeiras migrou para as
telas. Mas, enquanto avós, fi-
lha e netos dividem lembran-
ças de infâncias tão diferentes,
permanece a capacidade das
férias de criar memórias que
continuam sendo contadas
muitos anos depois.