Entre Deus e as Armas: A Barbárie que Se Esconde no Discurso da Ordem

Postado por admin 30/04/2026 0 Comentários Geral,

 

 

Entre Deus e as Armas: A Barbárie que Se Esconde

no Discurso da Ordem

 

 

 

 

A morte de Edson Ribeiro Junior, o “Edinho”, em frente ao Santuário do Senhor Bom Jesus, em Campo Largo, causou revolta e comoção nas redes sociais. Amigos e familiares descrevem um homem querido, em recuperação de uma cirurgia no esôfago após tratamento contra o câncer, que se cuidava e seguia rotina de medicação. Ainda assim, terminou morto a tiros dentro de seu Fusca, em circunstâncias que exigem apuração rigorosa e transparente. O caso, por si só, já seria grave. Mas ele se torna ainda mais simbólico por ter acontecido diante de pessoas que acabavam de sair de um templo religioso, local que deveria representar compaixão, acolhimento e respeito à vida.

 

Segundo relatos e imagens divulgadas, o veículo envolvido sofreu apenas um raspão. Nada que justificasse agressões, tumulto ou a escalada de violência que culminou na morte de Edinho. Em vez de prestar socorro a alguém que poderia estar passando por um mal súbito ou desorientação causada por questões médicas, a reação foi marcada pela hostilidade e pela pressa em punir.

 

O episódio expõe uma contradição profunda do Brasil contemporâneo: muitos que se apresentam como defensores de “Deus, pátria e família” parecem esquecer esses valores quando confrontados com situações reais que exigem empatia. Dizem defender Deus, mas ignoram a misericórdia. Dizem defender a família, mas legitimam atitudes que destroem famílias inteiras.

 

Edinho se soma, de forma dolorosa, a outros casos recentes que levantam questionamentos sobre violência policial e banalização da morte: o comerciante Daniel Patrício Santos de Oliveira, morto durante abordagem na Pavuna, no Rio de Janeiro; a médica Andréa Marins Dias, baleada dentro do próprio carro em Cascadura (RJ); e Thawanna da Silva Salmazio, morta após disparo de uma policial militar em São Paulo. Histórias distintas, em estados diferentes, mas conectadas pela mesma lógica perversa: primeiro a violência, depois as explicações.

 

Essa mentalidade foi fortalecida por anos de discursos que venderam a força bruta como solução para todos os problemas sociais. Normalizou-se a ideia de que autoridade se impõe pelo medo, de que arma resolve conflito e de que matar pode ser sinal de eficiência. Enquanto isso, professores, profissionais da saúde e políticas públicas sérias seguem desvalorizados.

 

O que aconteceu em Campo Largo não pode ser reduzido a mais uma estatística. Trata-se de uma vida interrompida, de uma família mergulhada no luto e de uma sociedade que precisa decidir se continuará tratando patrimônio como mais valioso que pessoas. Enquanto a truculência seguir sendo celebrada como virtude, continuaremos colecionando mortos e justificativas. E nenhuma sociedade se sustenta por muito tempo quando a fé se transforma em indiferença e a ordem se constrói sobre cadáveres.

 

Dalila de Castro Sousa

 

Presidente do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores de Campo Largo

 

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