Antonio Carlos Kuster deixa legado na música campo-larguense

Postado por admin 13/07/2026 0 Comentários Geral,

 

Antonio Carlos Kuster deixa legado

na música campo-larguense

 

 

Campo Largo se despediu, no dia 02 de Julho de 2026, do Antonio Carlos Kuster, que acabou falecendo na UTI do Hospital Sugisawa, em Curitiba. Ele que era nascido em 9 de Novembro de 1953, então com 73 anos.

 

Muitos, quem sabe, não se situem no reconhecimento de sua pessoa pela leitura do nome em si e, sim, pelo seu apelido, o qual não menciono aqui - mesmo não tendo nada de absurdo - pelo simples fato do prevalecimento do respeito e, também, porque o Antonio não gostava que o chamassem de forma pejorativa.

 

O Antonio foi uma pessoa que criou história aqui na cidade se destacando como músico de bandas.

 

Iniciou a atividade na década de 60, na efervescência da Jovem Guarda, juntamente com alguns amigos.

 

Em função das pesquisas históricas sobre assuntos relacionados à minha cidade, tive o grato prazer de conversar com ele em Fevereiro de 2024, em busca de informações sobre “Os Conjuntos Musicais Campolarguenses”, cujo tema venho desenvolvendo.

 

Em especial e aqui para ilustração dessa matéria, menciono "Os Anjos", o primeiro conjunto musical campo-larguense a utilizar guitarras elétricas.

 

Abaixo, um fragmento da longa entrevista que fiz e que ele me permitiu dividir com o público quando bem entendesse, dentro do uso proposto.

 

[…]

“O Getulio Crovador, o Beto Beraldo e o Rico Vidolin, já se aventuravam na música. Eles tinham um conjunto chamado “The Goldfingers”.

 

Havia um rapaz que vez ou outra tocava com eles, o Altivir Augusto, um baterista que tinha bateria e não emprestava o instrumento pra ninguém.

 

Eu queria me enturmar e isso aconteceu um pouco mais tarde. Numa reformulação do grupo, em que o Rico e o Altivir saíram, eu e o Manoel Morais, o “Jacaré”, passamos a fazer parte daquela turminha.

 

No início não tínhamos instrumentos sofisticados, eu fazia a “bateria” tocando num pandeiro.

 

O Getulio fazia a base num violão e o Beto com outro violão… não tínhamos guitarra.

 

Mais adiante houve um “aporte financeiro” feito por uma pessoa aqui da cidade, o Laurindo Barrichello, e conseguimos comprar instrumentos melhores.

 

Ensaiávamos, nos apresentávamos aqui e ali e seguíamos.

 

A coisa começou a ficar séria de verdade mesmo num baile lá no Clube Polonês… Baile dos Aventais, promovido pela igreja em prol das crianças pobres, em que fomos contratados para abrilhantar.

 

Durante o baile as mulheres percorriam as mesas em busca de doações e punham o dinheiro no bolso dos aventais que usavam; “ajuda para os anjos”, diziam… Uma referência às crianças necessitadas.

 

No cartaz do evento colado a porta do salão estava escrito: “BAILE PÃO DOS ANJOS”.

 

Como já havia um conjunto chamado “The Goldfingers”, resolvemos mudar o nome. Não sabemos se a nova alcunha veio em função daquele evento no Clube Polonês, uma abreviação da cidade de Los Angeles, uma banda que se chamava “The Angels” ou, simplesmente, porque aquilo era uma forma irônica de dizer que éramos rebeldes... sei dizer que “Os Anjos” foi o nome que pegou e assim ficou.

 

Fazíamos tremendo sucesso nas matinês do Clube União Campolarguense.

 

Depois do “Os Incríveis”, éramos a banda que melhor tocava a música “O Milionário”.

 

Com um repertório recheado de hits da Jovem Guarda e músicas de grupos instrumentais como The Jet Black's, The Shadows, The Ventures e Os Incríveis, buscávamos promover eventos que produzissem um retorno monetário visando o progresso do grupo.

 

Nos apresentamos em diversos lugares e cidades. O pessoal gostava da gente, as meninas pediam autógrafos…

 

Uma época bonita, no resplendor de minha vida!!

 

Bem mais tarde fui músico do “Forró do Samba”. Tocávamos muito na “Aquarela”, um bar super movimentado que havia entre o Banco do Brasil e a Farmácia Basso. Em Curitiba, também, em várias casas de show.

 

Toquei no “The Caras” que tinha o Pato e o Beto Paraguaio… eles, depois, foram músicos do Blindagem.

 

Quando o Blindagem fez 20 anos de banda, eu toquei junto com eles num show lá no Teatro Guaíra. Fiz, inclusive, a percussão nesse dia.

 

Toquei com o Navarro que era músico do Lenine, com o Paulinho Moska, um músico sensacional e popularmente conhecido que toca violão como poucos.

 

Vez ou outra falo com eles por telefone… eles vem pra Curitiba se apresentar e eu vou lá abraçar eles.

 

Embora tenha tocado com muitos e em vários lugares, nunca vivi da música.

 

Gosto do Rock, do Pop, do Jazz e até de algum som Sertanejo. O sertanejo puro.

 

Gosto da música pela música.

 

O que eu não gosto da música é o ambiente que a música cria e proporciona… com fumo, bebidas e, hoje, muito com o uso das drogas.

 

Atitudes exageradas em função do ego exacerbado de muitos músicos também me desagradam.

 

A grande maioria dos artistas não condiz com a educação que deveria ser inerente ao ser humano.

 

Não gosto das “chacrinhas”. Não gosto daqueles que fazem qualquer coisa para aparecer, para se sobressair.

 

Na contramão disso tudo, não gosto de saber que os bons músicos são mal tratados em alguns ambientes.

 

Toquei em lugares que nos tratavam muito mal. Na hora de nos servir, no intervalo das apresentações, nos davam comidas ruins.

 

Certa vez trouxeram pra mim uma porção de arroz com um osso em cima. Um osso daqueles que vem o tutano dentro… Só que dentro não havia nada. Era só o osso, arroz e um molho em cima.

 

Noutra oportunidade, numa empresa onde nos apresentamos, nos trouxeram uma travessa com banana a milanesa. Aquilo foi a nossa janta… Banana a milanesa.

 

Considero situações como essa, um tremendo desrespeito.

 

Isso não foi só comigo… Muitos músicos passam por situações semelhantes.

 

Isso me parece uma coisa cultural aqui em nosso país.

 

Claro que nem tudo é assim; já fomos em outros lugares e fomos respeitosamente bem tratados.

 

Nunca exigimos nada de extraordinário.

 

Apenas queríamos ser respeitados.

 

Afora isso, só tenho a agradecer e a me orgulhar daquilo tudo que a música me trouxe.” (continua / Antonio Carlos Kuster, 26 de Fevereiro de 2024)

 

[…]

Ao Antonio... o meu respeito por sua trajetória.

 

FOTO: Os Anjos, Beto Beraldo, Antonio Carlos Kuster e Getulio Crovador.

 

Texto por: Silvano Silva

 

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