
Seu dinheiro por Adriano Koehler
“Faça como um velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar”
Paulinho da Viola, em Argumento

O mundo atual está cada vez mais turbulento para o investidor conseguir tomar decisões sobre seus investimentos. São tantos fatores simultâneos, todos sendo transmitidos para todo mundo em tempo real, muitos deles contaminados pelas fake news, influenciados pela polarização ideológica (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) e com impacto em nosso dia-a-dia, ainda que não pareça provável, que escolher um porto seguro parece impossível. Fica difícil até mesmo saber por onde começar a avaliar, mas vamos tentar dar um resumo.
Em primeiro lugar, é necessário ficar de olho nas indicações que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, fará para a sua equipe. Os primeiros sinais mostram que ele procurará cumprir as suas promessas de campanha, ou seja, aumentar os impostos de importação de produtos, principalmente dos países que vendem mais do que compram para os EUA, promover deportações em massa, cortar impostos de empresas, melhorar o ambiente regulatório para as criptomoedas e desregulamentar uma série de atividades econômicas. Antes de 20 de janeiro, tudo é especulação. O que de fato existe é um rally das criptomoedas (altas históricas) e das bolsas de valores lá, mas ninguém sabe dizer até quando. E se o Trump aumentar as tarifas de produtos chineses, como a China reagirá? Ninguém sabe.
Para o Brasil, o mais importante é ver para que direção irão os juros americanos. Se continuarem descendo, é bom para o Real, pois a nossa taxa de juros irá atrair capital estrangeiro. Mas algumas políticas anunciadas por Trump podem gerar inflação, o que poderia significar aumento de juros lá, e logo, diminuição da atratividade do Brasil como destino de moeda estrangeira, enfraquecendo o Real. É necessário observar com atenção o que está acontecendo.
Outro ponto importante que é necessário observar é como Trump irá se comportar em relação à Ucrânia e à Israel. Ainda que pareçam distantes, o que acontecer lá terá reflexos aqui. No dia 21 a Rússia disparou um míssil balístico contra a Ucrânia, míssil esse sem ogiva nuclear, mas daqueles que poderia atravessar o oceano contra um alvo americano, por exemplo. Isso depois dos EUA terem autorizado a Ucrânia a usar mísseis de longo alcance em alvos dentro do território russo. A cada dia, aumenta o risco de a guerra se espalhar para outros países da Europa, o que seria uma catástrofe financeira global. No Oriente Médio, a situação é parecida, e como envolve o Irã, um grande produtor de petróleo, um alargamento dos conflitos – além da Palestina, do Líbano e do Iêmen – pode bagunçar bastante o mercado.
Como se o cenário lá fora não bastasse, aqui no Brasil nosso governo continua adiando o anúncio do corte de gastos. Parece aquele anúncio em botequim antigo, “fiado só amanhã”. Vem o amanhã e o anúncio continua lá. O tal do arcabouço fiscal, ainda que bem-intencionado, foi mal escrito, e o que se viu foi uma explosão de despesas obrigatórias. Sem um ajuste fiscal para dar previsibilidade às contas públicas (nem que fosse para uma previsibilidade do déficit), poucos querem investir no Brasil. Claro que o Congresso não ajuda muito nessa questão quando o Executivo propôs eliminar vários subsídios e os deputados e senadores vetaram. Nas contas do Ministério da Fazenda, de janeiro a agosto de 2024 546 bilhões de reais em benefícios fiscais foram concedidas a empresas de diversos setores. Se esses benefícios fossem reduzidos em 10%, quase já compensava o pacote que o governo deve lançar. (Se você estiver curioso em conhecer os beneficiados com as benesses, clique em https://docs.google.com/spreadsheets/d/1dcl8jgaZYCd5nucPqsWDBa6Y8xYCrXx9/edit?gid=223834867#gid=223834867)
Esse é o presente. Para o médio prazo, temos alguns outros fatores que eventualmente são negligenciados nas análises e que deveriam ser considerados seriamente. Como a economia global reagirá a uma Europa cada vez mais velha e com uma indústria que já passou pelo seu auge? O quanto a China continuará influente sendo que sua população deve se reduzir pela metade até 2100, de acordo com os demógrafos)? Outros países fortemente exportadores, como Japão, Cingapura, Taipé, Hong Kong e Coreia do Sul também estão vendo suas populações diminuírem. Mesmo o Brasil já sente isso, e o IBGE estima que a população brasileira começará a se reduzir a partir de 2048 (mas todos que fizeram essas contas antes reviram os números e a população começou a cair mais cedo do que o estimado). E melhor parar por aqui, porque nem começamos a falar dos desafios climáticos, das pressões nacionalistas em muitos países, dos dilemas da imigração global.
Tudo somado e subtraído, para onde ir com seu dinheiro? Serei insistente com o mantra, mas a insistência se justifica porque ela funciona. Em primeiro lugar, quais os seus objetivos de curto (até um ano), médio (de um a três anos) e longo prazo (acima de três anos)? Em segundo lugar, qual o seu perfil de investidor – conservador, moderado, arrojado? Seu perfil está adequado à sua idade (sim, um está intimamente ligado ao outro)? O quanto você conhece do mercado financeiro? Se você tem respostas bem definidas para essas perguntas, talvez você consiga se aventurar nesse mar sozinho. Mas se puder contar com o auxílio de um profissional da área, as chances de você pegar uma tempestade se reduzem bastante. Até porque eles são pagos para ver todo o cenário atual e desenhar possibilidades, ou seja, reduzir riscos. Por isso não dá para dizer aqui que o investimento X ou Y é certeiro, isso não existe. Mas há caminhos a seguir, alguns menos turbulentos que outros. Procure saber.
Bons investimentos!
Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos
(adriano@solutioinvestimentos.com.br)
Leave a Comment