
Seu dinheiro por Adriano Koehler
Quando a realidade esmaga a expectativa

O governo federal está preso em uma armadilha de difícil saída. Por um lado, existe muita expectativa por parte dos agentes de governo e de seus apoiadores de que a economia brasileira irá se consertar em um passe de mágica, e que basta um discurso do Presidente Luís Inácio Lula da Silva para acalmar os agentes de mercado. Mas a realidade, principalmente a realidade dos números das contas públicas, é cruel com quem vive de expectativas. Essa disparidade entre as expectativas e a realidade provoca nas pessoas sentimentos de decepção e no mercado financeiro queda na bolsa, alta nos juros e alta do dólar, o que tudo somado, dificulta a vida de todo mundo.
Na manhã, do dia 28 de novembro de 2024, o Ministro da Fazenda Fernando Haddad e outros ministros finalmente anunciaram o tão esperado pacote de corte de gastos governamentais, ou ajuste fiscal, para não soar tão agressivo aos ouvidos de quem não tolera cortes de gastos estatais (em especial, o Presidente). Até o momento em que se escreve essa coluna, a bolsa caía mais de 1% e o dólar subia mais de 1% também. Ou seja, a expectativa do governo de que todos gostariam das medidas anunciadas bateu de frente com a realidade dos números – de novo – e provocou a maior decepção. A questão principal, que era sugerir caminhos para a queda da dívida pública no futuro, praticamente não foi mencionada no pacote. Pelo contrário, o anúncio do aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda provocou ainda mais reações negativas, pois indica um crescimento da dívida.
A não ser que haja uma nova surpresa (ou que o governo diga que foi tímido demais na proposta e a refaça, o que não parece o caso), a dívida brasileira continuará aumentando. Para conseguir sustentar isso, o governo continuará emitindo títulos da dívida (o nosso Tesouro Direto, cujos juros futuros também sobem nesse momento). A desconfiança também faz o capital estrangeiro sair do Brasil, ou seja, o dólar fica mais caro. E como o Brasil é uma economia relativamente conectada com o mundo, dólar mais alto significa mais inflação. E empresas que dependem de crédito podem ter queda nas vendas, pois os juros mais altos vão encarecer tudo.
E seus investimentos, como ficam nesse cenário? Em um primeiro momento, os papéis de renda fixa atrelados ao CDI ou à taxa Selic estarão mais atrativos, pois a taxa de juros permanece com tendência de alta. Os títulos do Tesouro Direto IPCA + também são excelentes opções (no dia 28 o papel com vencimento para 15/05/2029 estava pagando IPCA + 7,14% ao ano, uma das maiores taxas da história). Papéis pré-fixados podem ser uma alternativa apenas se estiverem pagando muito bem e forem de curto prazo. Uma piora no cenário poderia levar a novos aumentos na taxa de juros, podendo deixar esse tipo de papel com rendimento inferior à taxa Selic (mas ainda assim acima da inflação projetada).
Do outro lado, ativos de renda variável tendem a sofrer mais. A B3, a bolsa de valores do Brasil, caía mais de um por cento na quinta de tarde. Como o investidor estrangeiro quer sair do Brasil, pois não vê aqui um cenário de estabilidade, ele vende os seus papéis e inicia todo um movimento de saída do mercado, reduzindo as cotações de muitas empresas. Nesse momento, para quem tem nervos de aço e algum dinheiro sobrando, pode ser um bom momento para entrar na Bolsa e aproveitar o preço baixo das ações. Fundos imobiliários também podem ter suas cotações reduzidas e convém avaliar onde esses fundos estão alocando seus recursos para saber qual deles vale a pena. E como os movimentos do futuro presidente Donald Trump estão também mexendo com todos os mercados, convém ter-se muita cautela e calma nesse momento. E, sempre, procure alguém que possa lhe orientar com boas informações.
Bons investimentos!
Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos
(adriano@solutioinvestimentos.com.br)
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