Seu dinheiro por Adriano Koehler Nem tudo é o que parece

Postado por admin 19/01/2025 0 Comentários Economia,

 

Seu dinheiro por Adriano Koehler

 

Nem tudo é o que parece

 

A economia é uma ciência social, pois ela tem uma natureza interdisciplinar e tem como foco o estudo do comportamento humano em relação à produção, distribuição e consumo de bens e serviços. E como ela mede o comportamento humano, ela não é uma ciência exata. Por isso se diz que os economistas são muito bons para prever o passado, mas não para projetar o futuro. Basta ver o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central a cada segunda-feira. Todas as projeções feitas no início de 2024 deram errado.

Logo, na hora de investir é muito importante avaliar bem o ativo que você está negociando para evitar que a sua percepção se sobreponha à realidade dos fatos, o que pode gerar prejuízos para o seu bolso (o que normalmente acontece quando se usa o achismo no lugar da decisão pensada e ponderada).

 

Tomemos como exemplo os fundos imobiliários negociados na B3, a bolsa de valores brasileira. Um fundo imobiliário é uma ferramenta de investimento que capta recursos das pessoas para investir em construções, construtoras ou recebíveis de empresas que lidam com imóveis. A maior parte dos fundos são os fundos de tijolo, que são proprietários de imóveis dos mais variados tipos: shoppings, lajes corporativas, galpões logísticos, hotéis, escolas, hospitais etc. Outros fundos são de papel que investem em recebíveis imobiliários, ou seja, construtoras que venderam imóveis e tem uma carteira de recebíveis, e vendem essa carteira para o fundo. Há os fundos híbridos, que juntam papéis e tijolos. Há fundos que investem em desenvolvimento imobiliário (imóveis que serão construídos) e, por fim, fundos que investem em outros fundos.

 

Pois bem. Imaginemos um fundo de tijolo que é proprietário de shopping centers (ou parte deles ou dono único). O imóvel existe, é um bem físico. E pelos últimos dados da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), a ocupação deles fechou 2024 em 94,7%, o que significa que de cada 20 espaços, apenas um estava vazio. E com os 19 espaços pagando aluguel, gerando dividendos aos donos das cotas. É um setor que se recuperou muito bem após a pandemia. Mas os fundos imobiliários como um todo estão derretendo na bolsa. Por quê?

 

Porque a taxa de juros básica da economia brasileira foi elevada pelo Banco Central para combater a inflação e devido às incertezas da política fiscal brasileira. Com isso, os investidores preferem o porto seguro da renda fixa, que tem vários produtos atrelados a essa taxa, e retiram dinheiro da bolsa. Nos fundos imobiliários, quando alguém vende uma cota do fundo abaixo do valor de mercado, todas as cotas são remarcadas, gerando assim uma sensação de perda. É uma sensação pois você só perderá se vender o papel a menos do que você o comprou. No entanto, os shopping centers do fundo continuam lá, com praticamente todas as lojas alugadas e pagando os seus dividendos. Nesse caso, há a percepção de que o negócio foi ruim, mas ele continua bom.

 

O mesmo vale para algumas empresas da bolsa. As geradoras e distribuidoras de energia elétrica, por exemplo, tem em seus contratos o direito de reajustar as tarifas de acordo com a inflação. Se ela subir, a conta de luz vai subir. E a inadimplência dessas empresas é muito pequena, pois luz é essencial para tudo. Mas a percepção é que toda a economia brasileira irá despencar, haverá recessão, empresas fecharão, enfim, uma cascata de infortúnios sem fim. Será mesmo? Na prática, o que os analistas estão indicando para quem tem apetite ao risco é comprar a bolsa de valores brasileira, pois os ativos estão baratos (tanto em reais como em dólar) e com uma perspectiva boa para um horizonte além de dois anos. Pode ser que o cenário mude, mas hoje é essa a direção.

 

Há inúmeros exemplos de percepção que se sobrepõe à realidade e que podem gerar prejuízos. Dois casos de almanaque no mundo dos investimentos são da empresa Enrom, uma distribuidora de energia americana, e do banco Lehmann Brothers, também americano. Passar na frente das sedes dessas empresas faziam a pessoa pensar que elas nunca quebrariam. Hoje elas não existem mais. No Brasil, podemos lembrar dos bancos Nacional, Econômico, Bamerindus e tantos outros que se foram após o Plano Real, pois por mais agências que tivessem, seus balanços só se sustentavam por conta da inflação.

 

Tudo somado, é impossível cravar com certeza que o investimento em uma ação ou um fundo irá gerar lucros no futuro. No entanto, uma análise profunda pode minimizar os riscos de isso acontecer e tornar mais fácil a escolha de um investimento. E se você não tem tempo para fazer essa análise, conte com o apoio da sua corretora de valores, que tem diversos profissionais dedicados a olhar os balanços e fundamentos de empresas e fundos nos seus mínimos detalhes. E nunca se esqueça da regra máxima dos investimentos: diversifique!!

Bons investimentos!

 

Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos

(adriano@solutioinvestimentos.com.br)

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