
Seu dinheiro por Adriano Koehler
A importância da independência
No dia 26 de agosto, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou na sua rede social Truth que estava demitindo uma das diretoras do Federal Reserve, o banco central americano, a economista Lisa Cook.

O gesto foi e está sendo visto por muitos como um grande golpe temerário que afronta um dos pilares do capitalismo moderno: a independência dos agentes financeiros e controladores do mercado. Até o momento, não se sabe se Trump terá sucesso em sua tentativa de demitir Cook, pois o Federal Reserve é independente e o presidente não tem autoridade para demitir um diretor, salvo ele tenha cometido alguma irregularidade no mercado, que é o que Trump alega.
Por que a independência de um banco central é importante para a condução da economia? Vamos dar um exemplo prático acontecido no Brasil não faz muito tempo. Em agosto de 2011, Dilma Rousseff, no auge de sua popularidade (início de governo tem disso), iniciou uma pressão sobre Alexandre Tombini, então presidente do Banco Central, para reduzir a taxa Selic.
Ao longo de 14 meses, a taxa foi sendo reduzida até chegar a 7,25% ao ano, a mais baixa registrada na história do Brasil. Essa estratégia fazia parte do que o governo Dilma chamava de Nova Matriz Econômica, uma combinação de juros baixos, desonerações, subsídios e protecionismo, que aparentemente iriam impulsionar o crescimento. Deu errado.
Os bancos não concederam crédito, as contas públicas começaram a sair de controle e foi necessário um aperto fiscal, o que levou a economia para baixo. Houve outros fatores que prejudicaram a economia, mas a pressão de Dilma sobre o BC, impedindo-o de executar a sua missão (que é controlar a inflação e contribuir para a geração de empregos), com certeza foi determinante.
Em países autoritários, onde não há a independência do banco central, esses rompantes dos governantes frequentemente geram inflação, depreciação da moeda local, queda no crescimento da economia e desemprego. O Zimbabwe é um exemplo clássico. O país conquistou sua independência da Inglaterra em 1980 e era visto como um dos mais promissores do continente africano, pois tinha uma infraestrutura boa, era um grande produtor agrícola e possuía uma economia diversificada. Com a chegada de Robert Mugabe ao poder, em 1987, com promessas de reduzir a desigualdade no país, iniciou-se um longo período de intervenções que culminaram na maior taxa de inflação do mundo: 89,7 sextilhões por cento ao ano (um sextilhão é o número 1 seguido de 21 zeros) em 2008, com todas as desgraças que vêm junto.
A moeda do país virou pó e até hoje o país tenta se recuperar. Mugabe saiu do poder em 2017, mas os efeitos deletérios de sua intervenção persistem.
Não é apenas o Banco Central que precisa de independência para atuar. Pense também na Câmara de Valores Mobiliários, o xerife do mercado de valores (leia-se investimentos) brasileiro. Se ele não fosse independente, haveria o risco de existir produtos ruins no mercado, danosos aos investidores, apenas porque o criador desses produtos é amigo do governante de ocasião. O mesmo vale para as agências reguladoras, que precisam ser isentas e independentes para proteger o consumidor brasileiro.
E se você acha que um banco central independente não é necessário, veja o que está acontecendo na economia mundial. Desde o dia 26 o dólar vem perdendo valor em relação às demais moedas importantes do mundo (euro, franco suíço, libra esterlina, yen etc).
A longo prazo, isso significará para o consumidor americano inflação (pois os bens importados ficarão mais caros) e redução do crescimento econômico. E o único culpado desse movimento é Donald Trump e sua tentativa de intervir no Federal Reserve. Se o dólar sofre com isso, imagine outras moedas não tão fortes.
Bons investimentos!
Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos (adriano@solutioinvestimentos.com.br)
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