Economia circular ganha espaço no dia a dia dos campo-larguenses

Postado por admin 24/07/2026 0 Comentários Economia,

 

 

Economia circular ganha espaço no dia a dia dos campo-larguenses

 

 

 

 

Comprar produtos de segunda mão deixou de ser apenas uma forma de economizar. Cada vez mais consumidores enxergam nesse hábito uma maneira de consumir de forma mais consciente e reduzir o desperdício. Entre os campo-larguenses, não é diferente. A prática, chamada de economia circular, ainda é pouco conhecida pela maioria dos brasileiros, mas já faz parte da rotina de muitos moradores do município.

 

 

 

 

 

 

 

Uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e realizada pelo Instituto Nexus, divulgada neste mês, mostrou que 39% dos brasileiros nunca ouviram falar em economia circular. Apesar disso, muitos dos hábitos que fazem parte desse modelo já são comuns no dia a dia. É o caso de quem compra roupas em brechós, troca livros já lidos em sebos ou decide vender itens que estavam parados em casa para que outras pessoas possam utilizá-los.

 

Quando abriu o Brechó Dona Ana, no Centro de Campo Largo, há pouco mais de três anos, Fabiane Freire ainda encontrava resistência de parte dos consumidores em relação às roupas de segunda mão. Hoje, ela vê um cenário completamente diferente.

 

"Muitas pessoas escondiam que compravam roupa em brechó. Hoje acontece exatamente o contrário. O cliente tem orgulho de dizer que foi um garimpo e mostrar a peça exclusiva que encontrou", relata.

 

Segundo a empresária, a economia continua sendo o principal motivo que leva novos clientes ao brechó, mas deixou de ser a única razão para voltar. Ela afirma que o cliente percebe que consegue comprar peças de qualidade e de marcas conhecidas. “A exclusividade acaba fidelizando”, complementa.

 

O aumento da procura também impulsionou o crescimento do negócio. O brechó que começou em Campo Largo hoje conta com quatro unidades na Região Metropolitana de Curitiba. Em maio deste ano, foi inaugurada uma loja voltada para uma curadoria de peças premium. Outra mudança chamou a atenção de Fabiane antes mesmo do crescimento das vendas. Aumentou também o número de pessoas interessadas em dar um novo destino às roupas que já não usam.

 

"A procura de pessoas querendo dar um novo destino para as roupas é gigante e constante. Recebemos essas peças, fazemos uma avaliação criteriosa e elas voltam para as araras. É muito gratificante perceber que a comunidade abraçou essa ideia." Dar uma nova vida a produtos que poderiam ficar esquecidos ou ser descartados é justamente um dos princípios da economia circular. A engenheira ambiental e sanitarista Bruna Saczk explica que o conceito propõe substituir a lógica tradicional de produzir, consumir e descartar por um modelo em que os produtos permanecem em uso pelo maior tempo possível.

 

"No caso do brechó, por exemplo, a roupa continua cumprindo sua função sem que seja necessário fabricar uma nova peça. Isso reduz o consumo de matérias-primas, água e energia utilizados na produção." Segundo ela, reutilizar costuma trazer benefícios ambientais ainda maiores do que reciclar, já que o produto continua exercendo sua função sem precisar passar novamente por processos industriais.

 

Enquanto as roupas voltam às araras, os livros seguem um caminho parecido. No Sebo Menezes, também no Centro de Campo Largo, exemplares que já passaram pelas mãos de um leitor continuam encontrando novos donos. O estabelecimento é administrado por Rosemary de Moraes Menezes Correa e pelo filho, Breno Menezes Correa. A história começou há mais de uma década, quando Rosemary decidiu abrir um sebo na cidade. Após um período como franquia e uma interrupção durante a pandemia, mãe e filho decidiram recomeçar. A reconstrução do acervo teve participação direta dos moradores.

 

"Foi Campo Largo que ergueu a gente. A gente voltou praticamente só com os livros que tinha em casa. Depois, muitas pessoas começaram a trazer livros para vender, trocar e doar. Foi assim que conseguimos montar o sebo novamente”, conta Breno.

 

Hoje, ele percebe um público bastante diverso. Os adultos continuam sendo maioria, mas adolescentes passaram a frequentar o estabelecimento em busca de mangás e livros indicados nas redes sociais. Segundo ele, a internet deixou de ser concorrente para se tornar uma aliada. "Quando algum influenciador comenta um livro, a procura aumenta muito. Aconteceu com Kafka, Colleen Hoover e Dostoiévski. Os clientes chegam perguntando pelos mesmos títulos”, observa o proprietário.

 

Mas nem todos entram no sebo atrás dos sucessos do momento. Há quem procure uma edição antiga, um livro fora de catálogo ou uma história que marcou a infância. Breno lembra de um exemplar publicado na década de 1940 que chegou ao sebo com uma dedicatória escrita por um antigo morador de Campo Largo. "O cliente levou justamente por causa da dedicatória. O livro tinha um valor histórico muito grande."

 

Em outra situação recente, um rapaz encontrou no Sebo Menezes um livro de economia que procurava há anos e não conseguia localizar nem pela internet. "Ele ficou muito contente. Disse que voltaria para procurar outros livros." Para Breno, é esse movimento que dá sentido ao trabalho desenvolvido pela família. "O livro é cultura, e cultura é compartilhada. Muita gente lê uma vez e deixa o livro parado. Aqui ele continua circulando."

 

Na avaliação de Bruna Saczk, histórias como essas mostram que a economia circular não depende apenas de grandes empresas ou políticas públicas. Ela também acontece nas escolhas feitas pelos consumidores. A engenheira acredita que esse comportamento tende a crescer nos próximos anos, à medida que as pessoas passem a considerar não apenas o preço, mas também a durabilidade e o destino dos produtos depois do uso.

 

A pesquisa nacional reforça essa percepção. Embora boa parte da população ainda desconheça o termo economia circular, a maioria dos entrevistados afirmou estar disposta a mudar hábitos de consumo para reduzir a geração de resíduos. Para Bruna, consumir de forma consciente não significa apenas comprar um produto sustentável, mas sim comprar quando há necessidade, cuidar melhor do que já se tem e prolongar ao máximo a vida útil dos produtos.

 

POR: DUDA BOARON

 

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