
Seu dinheiro por Adriano Koehler
Em boca fechada não entra mosca!
Muito das movimentações do mercado financeiro se devem a boatos, rumores e, principalmente, falas equivocadas das autoridades que influenciam diretamente a economia. Veja o que aconteceu no Brasil, em 27 de novembro do ano passado, logo após o segundo turno das eleições. Todos os agentes econômicos esperavam o anúncio do pacote fiscal – leia-se corte de gastos – que ajudaria o país a retomar a trajetória de controle da dívida pública. O anúncio foi feito, mas o governo falou demais e anunciou junto o aumento do limite de isenção do imposto de renda, uma medida que reduz a arrecadação e prejudica o equilíbrio das contas.
A fala a mais gerou estresse no mercado. O dólar pulou de R$ 5,81 no dia 25 de novembro para fechar em R$ 6,01 no dia 27, uma alta de 3,44% em um único dia! E como o governo, em vez de agir, ficou falando demais, a situação só fez piorar e o dólar comercial atingiu o pico de R$ 6,29 no dia 17 de dezembro. O que piorou a situação? As falas dos diversos responsáveis do governo eram desencontradas e com justificativas frágeis e não bem embasadas. Quem vai acreditar quando o discurso é ruim?
A questão da normativa da Receita Federal de monitorar as movimentações PIX de pessoas físicas em volumes acima de R$ 5 mil e de pessoas jurídicas acima de R$ 15 mil é outro exemplo. A normativa da Receita já existia desde setembro de 2024 e ninguém tinha percebido ou feito alarde. Na prática, havia um benefício para todos, pois antes dessa normativa todas as movimentações bancárias acima de R$ 2 mil já estavam sendo monitoradas (sem prejudicar o sigilo bancário de ninguém). A receita só estava incluindo as fintechs, os bancos digitais, que até então estavam em um limbo quanto ao monitoramento, para reduzir as brechas de quem movimenta dinheiro sem declarar, especialmente contraventores e criminosos.
Pois bem, um governo que já vinha enfraquecido do anúncio do pacote fiscal foi alvo fácil da oposição. Sem entrar no mérito do vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira, o governo se viu acuado, nas cordas (como dizem os narradores das lutas de boxe), passou alguns dias tentando achar um discurso, não conseguiu e capitulou e achou melhor revogar a medida do que abrir a boca para dar mais desculpas, que já não colavam na opinião pública.
E em 20 de janeiro, Donald J. Trump assume o governo dos Estados Unidos. Durante toda a campanha, ele falou que iria aumentar ou colocar tarifas extras para os produtos importados, principalmente da China, do México e do Canadá. No entanto, em seus discursos inaugurais, ele ficou quieto quanto a isso. E não assinou nenhum decreto. Qual o resultado do seu silêncio? A valorização do dólar diminuiu em todos os mercados. E no Brasil, como o nosso governo também ficou quieto, o dólar ficou mais barato. Em 21 de janeiro, depois de muito tempo, a moeda americana fechou abaixo dos seis reais, a R$ 5,94.
Em resumo, ficar quieto em vez de sair falando é sempre melhor. O improviso, no mercado financeiro, pode gerar grandes prejuízos, pois envia sinais ruins para os agentes de mercado. Por isso que toda e qualquer medida econômica ou anúncio de investimentos (quando se está falando de empresas) deve ser muito bem pensado e planejado, feito com linguagem clara e direta. Afinal, os ditados populares não surgem por acaso.
Bons investimentos!
Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos (adriano@solutioinvestimentos.com.br)
Leave a Comment