Seu dinheiro por Adriano Koehler O canto da sereia

Postado por admin 19/04/2025 0 Comentários Economia,

 

Seu dinheiro  por Adriano Koehler

 

O canto da sereia

 

 

 

Na mitologia, as sereias são criaturas metade mulher e metade peixe que utilizam suas vozes encantadoras para atrair marinheiros e navegantes. Na Odisseia de Homero, os marinheiros de Ulisses colocam cera nos ouvidos para não sucumbir ao canto das sereias. Nosso herói, porém, queria escutar o canto das sereias e sobreviver à experiência.

 

Para isso, ele é amarrado ao mastro do navio enquanto seus marinheiros conduziam o seu barco, fazendo com que todos conseguissem passar pela ilha das sereias sem morrer. Com o tempo, o canto da sereia passou a significar qualquer discurso muito atraente, porém perigoso. E no mundo dos investimentos, estamos rodeados de sereias que anunciam rendimentos extraordinários para o seu dinheiro.

 

Na primeira semana de abril, um banco brasileiro chamou a atenção da grande mídia. O Banco Master que já era conhecido dos investidores, pois oferecia taxas de retorno para seus Certificados de Depósito Bancário (CDBs) muito acima da média de mercado, estava sendo comprado pelo Banco Regional de Brasília. A negociação está cheia de pontos obscuros: por que um banco estatal comprou 49% das ações ordinárias (com direito a voto) e 100% das ações preferenciais (sem direito a voto), ou seja, 58% do capital total do Master, o que mantem o atual controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, à frente do comando do banco?

 

Quais as garantias que o Master ofereceu ao longo do tempo para o Banco Central aprovar suas ofertas de títulos? A situação financeira do Master garante que terá dinheiro para honrar o pagamento aos investidores que deixaram seu dinheiro ali, atraídos pelas altíssimas rentabilidades?

 

Nesse caso específico, muita gente sentiu-se atraída pelas altas rentabilidades e colocou seus recursos no Master, certos de que, se o fizerem até o limite protegido do Fundo Garantidor de Crédito (FGC, instrumento gerido por todos os bancos brasileiros para proteger os investidores contra quebras no sistema financeiro).

 

 Dessa forma, caso o Master quebrasse, CDBs emitidos por ele que estivessem abaixo dos R$ 250 mil seriam cobertos pelo FGC. O problema está no volume de CDBs emitido pelo Master. Se ele quebrasse, consumiria praticamente metade de todo o FGC. Alguns analistas acham que o caso mostrou uma falha do FGC que deve ser corrigida em um futuro próximo.

 

 Também pesam negativamente os ativos que o Master elenca em seu balanço para poder justificar a emissão dos CDBs, alguns pouco comuns (como precatórios, por exemplo). E aqui estamos falando de uma instituição fiscalizada pelo Banco Central, oferecendo taxas de retorno estupendas. O que dizer de anúncios que oferecem taxas de retorno acima de 3% ao mês, livres de imposto de renda, ou de supostos consultores financeiros que pedem seu dinheiro hoje para devolver o dobro em 20 dias?

 

Descontando os agiotas, será muito difícil que tais “investimentos” (e bota aspas nesse termo) sejam de verdade ou confiáveis. Não está se dizendo aqui que não possam existir investimentos com taxas de retorno bem boas e que sejam confiáveis, mas é necessário investigar bastante quem está oferecendo isso e quais as garantias envolvidas.

 

O canto da sereia é sedutor. Mas lembre-se que nas histórias quem escutou o canto da sereia se deu mal. Por isso, tome muito cuidado quando aparecer na sua timeline no Instagram ou no Tik Tok alguém lhe oferecendo rendimentos muito altos, descolados da média do mercado. Procure sempre mais informações sobre o que está sendo oferecido e, quando possível, peça a ajuda de um especialista.

 

Bons investimentos!

 

Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos 

(adriano@solutioinvestimentos.com.br)

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