
Seu dinheiro por Adriano Koehler
Malditos juros ou benditos juros?

Quando você vai fazer um empréstimo ou comprar algo parcelado, com certeza você olhará os juros que são cobrados na operação e achará que eles sempre são elevados. Afinal, você está emprestando cem e terá que pagar cento e vinte lá na frente, um juro de 20% na operação. Mas se você vai investir, você sempre achará que a remuneração pelo empréstimo do seu dinheiro para alguém (afinal, todo investimento é isso) é sempre menor do que o ideal. E tudo isso é normal. Mas afinal, de onde veio essa história de juros?
Ela é mais antiga do que se pode pensar. Os primeiros a escrever sobre a relação entre tempo e dinheiro foram os babilônios. Desde aquela época, eles sabiam que os preços, por exemplo, podiam subir ao longo do tempo (ou seja, descobriram a inflação). Logo, se no início de um período você emprestava algum valor para alguém, você gostaria de ver esse dinheiro de volta com no mínimo o acréscimo da inflação, e mais uma taxa de lucro (o juro) que tem a ver com o risco de você não receber o valor de volta. Àquela época (estamos falando de dezoito séculos antes de Cristo) também era comum o empréstimo de sementes, também com cobrança de juros anual. A prática era comum e estabelecida, tanto que está inscrita no Código de Hamurábi, que estabelece regras de como os juros eram calculados e cobrados.
Ali perto, os gregos também conheciam o conceito e o utilizavam. Mas a primeira dissidência, digamos, veio de Aristóteles. Para ele, a usura (a cobrança de juros) era algo contrário à natureza e, como na prática o juro é a multiplicação do dinheiro a partir do próprio dinheiro, ela não se baseava em trocas, mas sim em lucros, o que seria considerado imoral em sua opinião.
Damos agora um longo salto adiante para a Idade Média, quando o mundo ocidental era dominado pelo pensamento da igreja católica. Na visão da igreja (e vamos lembrar que o pensamento filosófico da igreja foi muito influenciado pelos filósofos gregos), a usura era um pecado, e, portanto, não deveria ser praticada. Indo um pouco mais fundo, na prática a igreja católica considerava o dinheiro como algo pecaminoso, não apenas os juros (para o leitor entender como tudo pode mudar com o tempo). Ironicamente, o banco mais antigo do mundo (e que ainda está em operação) é o Monte dei Paschi di Siena, fundado em 1472 na Itália, pertinho do Vaticano (tudo bem que naquela época ainda não existia Itália).
Foi a Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero na Alemanha em 1517, que abriu a possibilidade de se repensar a aversão ao dinheiro e aos juros. Mais especificamente, a vertente calvinista da Reforma acompanhava o pensamento mais moderno da época (vamos lembrar que era o tempo das grandes navegações, o início do comércio global, a fundação de empresas para explorar os novos territórios – na visão dos europeus, claro). Todas essas iniciativas exigiam dinheiro, e quem emprestava o dinheiro o fazia sabendo dos riscos e embutia no valor do empréstimo a taxa de retorno, ou seja, o juro.
De lá para cá, a cobrança de juros foi normalizada entre nós. Ainda há diferenças na maneira como diferentes países lidam com isso. Bancos de países islâmicos seguem as regras de cobrança de juros estipuladas no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. São grandes bancos, mas pouco conhecidos fora de seus países de atuação justamente por essa maneira diferente de operar. Fora esses, praticamente todos os bancos operam da mesma forma.
Mas, via de regra, qualquer pessoa que empresta seu dinheiro a alguém ou a uma empresa espera recebê-lo de volta com alguma correção, e qualquer pessoa que toma emprestado crédito de alguém ou de alguma instituição sabe que irá pagar alguma correção. E isso no mundo inteiro. E o juro estará diretamente ligado a dois fatores: tempo e risco. Normalmente, operações de prazos mais longos poderão ter taxas menores, pois a mágica dos juros compostos é que trazem o resultado a longo prazo. Já o risco envolve o temor do credor de que a pessoa ou empresa para quem ele emprestou o dinheiro não o pague. Quanto maior o medo, maior o juro da operação. Por isso que dois bancos podem oferecer CDBs com taxas diferentes, tem a ver com o risco que cada um tem de quebrar (na visão do mercado, claro).
Exaltar ou demonizar o juro vai depender de que ponta você está, se na de credor ou de devedor. E bem calculado e utilizado, o juro pode ser a grande ferramenta para multiplicar o seu capital e ajudá-lo a alcançar a independência financeira. Procure saber mais sempre e não se deixe levar pelas aparências.
Bons investimentos!
Adriano Koehler é jornalista e assessor de investimentos (adriano@solutioinvestimentos.com.br)
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