
Três gerações contam como as férias de julho mudaram
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As férias escolares começaram nesta semana para os estudantes da rede municipal de ensino de Campo Largo. Com o retorno às salas de aula previsto para o dia 27 de julho, muitas crianças devem aproveitar os próximos dias com passeios no Parque Newton Puppi, sessões de cinema, tardes jogando videogame e momentos de brincadeira com a família e os amigos.
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Mas o recesso escolar nem sempre foi sinônimo de descanso e lazer. Há mais de meio século, durante o mês de julho, o período das férias era muito diferente do que o vivenciado hoje em dia. O tempo livre das crianças era ocupado principalmente pelas tarefas na roça.
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Em uma mesma família, três gerações ajudam a contar como a infância acompanhou as transformações de Campo Largo. Entre lembranças da lavoura, brincadeiras na rua e os desafios trazidos pelas novas tecnologias, as histórias mostram uma cidade que cresceu, mudou seus costumes e ampliou suas formas de lazer, mas manteve algo presente em todas as épocas: as memórias construídas durante a infância.
"Nós não tivemos infância. Só trabalhamos."
A frase de Eliza Razera Boaron, de 77 anos, não carrega revolta nem nostalgia. Ela representa a lembrança de uma realidade compartilhada por muitas crianças que cresceram na zona rural de Campo Largo nas décadas de 1950 e 1960. Filha de uma família com quatro irmãos, Eliza aprendeu cedo que todos tinham uma função dentro de casa. Quando as aulas terminavam, começava outra rotina. Era preciso descascar milho para alimentar as criações, cortar pasto, rachar lenha e ajudar os pais no que fosse necessário durante o tempo livre.
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Ao lado dela, o marido, Benjamim Boaron, de 84 anos, compartilha lembranças semelhantes. Nascido e criado na Colônia Mariana, em uma família de sete irmãos, ele também conheceu cedo a rotina da roça. Enquanto os adultos trabalhavam, as crianças ajudavam como podiam.
As poucas brincadeiras precisavam caber nos intervalos do trabalho. Eliza lembra que um dos únicos momentos de diversão era quando brincava com um velocípede de três rodas, que pertencia ao irmão mais novo. Os dois tentavam se equilibrar no brinquedo ao mesmo tempo, até que, depois de tanto uso, o velocípede acabou quebrando.
Entre todas as lembranças da infância, uma continua especialmente viva para Eliza. Ainda menina, ouviu da tia a promessa de que ganharia uma boneca. Passou dias esperando o presente. Chegou a dormir na casa da parente, imaginando como seria brincar com o brinquedo que tanto desejava. A boneca nunca chegou. "Eu queria tanto uma boneca... Nunca ganhei uma boneca", lembra. Hoje, ao ver os netos cercados de brinquedos, ela não lamenta a infância que teve, e reconhece que aquela era a realidade de muitas famílias do campo.
Eliza estudou na Escola Caetano Munhoz da Rocha, localizada na Estrada da Sereia, no bairro Rondinha. Já Benjamim frequentou uma escola localizada na Colônia Mariana, que hoje não está mais em funcionamento. Mais de seis décadas depois, Eliza ainda guarda o diploma escolar. O documento é uma das poucas lembranças materiais daquele tempo, anos em que estudar era um privilégio para poucas crianças.
Em casa, a mãe não sabia ajudá-la com as lições. Era o pai quem, depois de um dia inteiro de trabalho, se sentava ao lado da filha para ensinar a leitura que a professora cobraria na manhã seguinte. "Pai, me ensine a lição", ela pedia. E ele, lembra Eliza, sempre teve paciência. Graças a esses momentos, chegava à escola preparada para recitar o conteúdo diante da turma. Décadas depois, essa ainda é uma das recordações mais carinhosas que guarda da infância.
Os estudos, porém, terminaram cedo para os dois. Eliza e Benjamim estudaram apenas até a 4° série. Como acontecia com muitas famílias da época, permanecer na escola era difícil. A necessidade de ajudar os pais falou mais alto. "Foi a vida da gente", resume Eliza, com a serenidade de quem aprendeu a enxergar a própria infância sem ressentimentos.
As “viagens” ao Centro de Campo Largo também eram acontecimentos. Quando aconteciam, começavam cedo, com os cavalos preparados para puxar a carroça pelas estradas de chão. Chegar à cidade era quase um passeio. Benjamim ainda descreve com facilidade a Campo Largo daqueles anos. Havia poucos armazéns, duas panificadoras conhecidas, apenas dois postos de combustível e quase nenhum automóvel circulando pelas ruas. As carroças dividiam espaço com os poucos veículos, e praticamente todos se conheciam pelo nome.
A infância da filha: quando a rua era o quintal
Décadas depois, a filha do casal viveria férias completamente diferentes. Lucimara do Rocio Boaron, de 42 anos, cresceu quando Campo Largo já começava a se expandir, mas ainda preservava o ritmo tranquilo de cidade do interior. As manhãs das férias começavam diante da televisão, assistindo aos desenhos. Depois do café, bastava atravessar o portão para encontrar os amigos da vizinhança. "A gente brincava muito na rua", lembra.
As tardes passavam entre partidas de queimada, alerta, elefante colorido, bicicleta e vôlei com rede improvisada. Os carros ainda eram poucos, os pais conheciam todas as crianças da rua e a calçada funcionava como uma extensão do quintal. As férias não incluíam grandes viagens nem uma programação cheia de atrações. Os programas mais esperados eram simples.
Um deles, recorda Lucimara, acontecia durante a Novena de Nossa Senhora da Piedade. Depois da celebração, a família seguia para comer pastel. O ritual se repetia todos os anos e acabou se transformando em uma das lembranças mais queridas da infância. "A atração era ir na Novena da Piedade. Ficava ansiosa para acabar e irmos comer pastel", conta, sorrindo.
Entre telas e novas possibilidades
Hoje, formada em Pedagogia e mãe dos gêmeos Pietro Boaron Franqueto e Valentina Boaron Franqueto, de 6 anos, Lucimara percebe que os filhos crescem em uma realidade muito diferente daquela em que viveu na década de 90. Parque, cinema, eventos culturais, restaurantes e novos espaços de lazer passaram a fazer parte das férias das famílias campo-larguenses.
Se a cidade passou a oferecer mais opções de lazer, também trouxe um desafio que não fazia parte da infância de Lucimara. Ela relata que a infância acontece de outra forma. Se antes bastava abrir o portão de casa para encontrar os amigos da vizinhança, agora as brincadeiras dependem de um ambiente considerado seguro. O movimento intenso de veículos e o receio das famílias com a violência fizeram as ruas deixarem de ser o principal espaço de encontro entre as crianças.
Aos poucos, bicicletas, partidas de queimada, e outras brincadeiras tradicionais passaram a dividir espaço, e, muitas vezes, a dar lugar, aos celulares, tablets e videogames. "Todo dia tem que desenvolver alguma atividade, porque, senão, eles só querem ficar na tela", afirma.
Para Lucimara, essa transformação não termina quando acabam as férias. Ela também aparece dentro da sala de aula. Segundo ela, muitos alunos retornam das férias mais dispersos e com dificuldade de concentração, comportamento que ela relaciona ao tempo prolongado diante das telas durante o recesso. Para ela, um dos desafios das famílias é encontrar um equilíbrio entre a tecnologia e as experiências que marcaram a infância de gerações anteriores, quando brincar na rua fazia parte da rotina das férias.
Enquanto a mãe fala, Pietro e Valentina aguardam a vez de responder sobre suas atividades favoritas para as férias. As respostas são rápidas. Minecraft. PlayStation. Lego. Bonecas. Parque. Cinema. É um vocabulário que certamente soaria estranho para os avós quando tinham a mesma idade. Ainda assim, existe algo que aproxima as três gerações. A expectativa pela chegada das férias continua exatamente a mesma.
Se antes julho significava acordar cedo para ajudar na lavoura, depois passou a ser sinônimo de brincar na rua até anoitecer e, hoje, reúne passeios, tecnologia e diferentes opções de lazer. Ao longo da conversa, ninguém afirma que uma infância foi melhor do que a outra. Os avós demonstram orgulho ao perceber que os netos vivem oportunidades que eles nunca tiveram. Lucimara procura oferecer aos filhos experiências que também se transformem em boas lembranças, ainda que em um contexto completamente diferente. E as crianças escutam, entre curiosidade e surpresa, histórias de uma Campo Largo onde se ia ao Centro de carroça, uma escola desapareceu com o passar dos anos e férias significavam vestir a roupa de trabalho.
A cidade cresceu. As estradas de chão deram lugar ao asfalto. Novas escolas surgiram enquanto outras ficaram apenas na memória de antigos alunos. O Parque Newton Puppi passou a reunir famílias nos fins de semana, e parte das brincadeiras migrou para as telas. Mas, enquanto avós, filha e netos dividem lembranças de infâncias tão diferentes, permanece a capacidade das férias de criar memórias que continuam sendo contadas muitos anos depois.
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