
Exemplo que veio de casa: filhos que escolheram a profissão dos pais


Afonso Pechebovicz e Tiago Pechebovicz.
Muito antes de conseguirem o primeiro emprego, quatro campo-larguenses já conviviam com a profissão que, futuramente, escolheriam seguir. A infância foi vivida entre as prateleiras de uma mercearia, as máquinas de uma serralheria, os corredores de um consultório médico e até o cemitério municipal.
Hoje, todos exercem a mesma profissão dos pais. Mesmo atuando em áreas bem diferentes entre si, em comum eles carregam lembranças que começaram ainda na infância e continuam presentes no dia a dia de trabalho.
O BALCÃO ONDE TUDO COMEÇOU
Quando Afonso Pechebovicz deixou a vida simples na roça, em Araucária, para abrir um pequeno comércio em Campo Largo, não imaginava que, anos depois, os filhos seguiriam o mesmo caminho. Instalado na Vila Bancária desde a década de 1980, o antigo bar foi se transformando, e dando lugar a Mercearia Pechebovicz.
Foi ali que Tiago cresceu. Depois da escola, enquanto os pais atendiam os clientes, ele e os irmãos Adriano e Tatiane, passavam a tarde entre as prateleiras da mercearia. Brincavam, ajudavam no que fosse preciso e, quando o movimento se estendia até mais tarde, chegavam a dormir no depósito de mercadorias.
O comércio fazia parte da rotina de Tiago muito antes de se tornar sua profissão. Quando terminou os estudos, continuar na mercearia aconteceu de forma natural. "Não foi porque meu pai obrigou. Fui continuando o trabalho e estou aqui até hoje", conta.
Hoje, mais de duas décadas depois de assumir seu lugar atrás do balcão, ele percebe que o maior legado deixado pelo pai vai muito além do negócio. Ao longo dos anos, viu clientes se tornarem amigos da família. Alguns acompanharam o crescimento dos filhos de Afonso e continuam frequentando a mercearia até hoje. No fim da tarde, o chimarrão reúne os vizinhos e transforma o balcão em ponto de encontro: “tem cliente que chega só para conversar. Um vizinho chama o outro e o pessoal fica batendo papo por horas."
A rotina mudou com o passar do tempo. O antigo caderninho do fiado deu lugar ao computador, mas a relação de confiança construída com muitos fregueses permanece a mesma. Para Tiago, o pai sempre deixou claro que um comércio não se sustenta apenas pelas vendas. Ao lembrar da trajetória de Afonso, o filho diz que o maior orgulho está na coragem de recomeçar.
Ainda jovem, ele deixou o interior, apostou em uma nova vida em Campo Largo e, com o trabalho de décadas, construiu um comércio que continua fazendo parte da rotina de moradores da Vila Bancária. "O maior orgulho que tenho dele é essa força que teve para sair do interior, batalhar e conseguir construir tudo isso”, relata Tiago.
TRÊS GERAÇÕES ENTRE O FERRO E A SOLDA
Na família Negrão, a Serralheria Aparecida atravessa três gerações. O primeiro a trabalhar com o ferro foi Joaquim. Depois vieram os filhos, Evandro e Gerson. Hoje, é Cássio quem ajuda a manter a empresa construída pela família.

Cássio e Gerson Negrão.
Ainda criança, acompanhava o pai sempre que surgia um serviço fora da empresa. Aos nove anos, já observava o trabalho de perto e começava a aprender, aos poucos, o ofício que, anos mais tarde, também escolheria seguir. Mas, segundo Cássio, não foi apenas a profissão que despertou seu interesse. O que mais o marcou foi ver a família reunida todos os dias no mesmo ambiente de trabalho.
"Percebi que era isso que queria para a minha vida foi quando comecei a entender o valor de trabalharmos todos juntos. Meu pai, meu tio e meu avô estavam ali construindo a empresa e a nossa história", conta.
Ao assumir espaço na serralheria, também passou a acompanhar as transformações do mercado. As grades e os portões trabalhados manualmente deram lugar a estruturas metálicas, mezaninos, coberturas, portas automatizadas e móveis de ferro. Mesmo assim, algumas lembranças continuam preservadas dentro da oficina. Uma delas é uma porta com o desenho de um coqueiro, produzida pelo avô quando ainda não existiam equipamentos modernos de corte.
"Aquela porta foi feita praticamente toda na lima. Hoje existem máquinas que facilitam esse trabalho, mas naquela época era tudo muito mais difícil", lembra Cássio.
Hoje, pai e filho dividem a administração da empresa e aprenderam a separar a relação familiar da rotina de trabalho. “Entre brigas e amores, a gente trabalha muito bem junto. Procuramos deixar a relação de pai e filho um pouco de lado durante o expediente", explica.
Mais do que ensinar a profissão, Gerson transmitiu ao filho a forma como acredita que um serviço deve ser entregue. "Meu pai sempre me ensinou a entregar um produto como se fosse para a nossa própria casa."
MUITO ANTES DO DIPLOMA
Muito antes de prestar vestibular, Sylvio Jacyr Parolin Melzer Palú já conhecia a rotina dos consultórios, dos plantões e da dedicação exigida pela Medicina. Filho do médico Sylvio José Palú, que há cerca de 30 anos atende pacientes em Campo Largo como clínico, cirurgião, endoscopista e obstetra, cresceu acompanhando o trabalho do pai e observando algo que ia além dos procedimentos médicos.


Pai: Sylvio José Palú. Filho: Sylvio Jacyr Parolin Melzer Palú.
O que mais chamava sua atenção era a forma como ele tratava os pacientes. "Ele nunca enxergou apenas a doença. Sempre olhou para a pessoa como alguém que precisava de cuidado, atenção e humanidade", conta Sylvio, orgulhoso de seu pai.
A escolha pela Medicina aconteceu ainda no ensino médio. Antes de prestar vestibular, chegou a considerar outros cursos, como Biologia, mas percebeu que era na profissão do pai que encontrava a possibilidade de cuidar das pessoas. "A Medicina me encantou pela possibilidade de trazer conforto e realmente ajudar na vida das pessoas."
Hoje, formado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e residente em Pediatria no Hospital de Clínicas, ele diz perceber os ensinamentos recebidos dentro de casa em situações que fazem parte da rotina médica. Quando atende um caso mais complexo ou acompanha famílias vivendo momentos delicados, a primeira reação costuma ser lembrar dos exemplos que recebeu do pai: "a primeira coisa que penso é: 'O que meu pai faria aqui?'."
Embora tenham seguido caminhos diferentes dentro da Medicina, Sylvio acredita que o maior legado recebido não está ligado às especialidades ou ao conhecimento técnico. Para ele, a principal lição veio da forma como o pai enxerga as pessoas: "meu pai sempre me ensinou que, antes de sermos médicos, somos pessoas."
Além da humanidade no atendimento, ele diz ter aprendido a importância da disciplina, do estudo constante e da busca por atualização profissional. São ensinamentos que procura levar para a própria carreira e que considera fundamentais para exercer a profissão. Ao falar do pai, porém, uma palavra resume tudo o que aprendeu ao longo dos anos.
"Se eu pudesse definir meu pai em uma palavra, seria humanidade. Ele é uma das pessoas mais humanas que conheço e isso me enche de orgulho."
Neste Dia dos Pais, a comemoração ganha um significado especial. É a primeira vez que pai e filho celebram a data exercendo oficialmente a mesma profissão.
O RESPEITO APRENDIDO NO CEMITÉRIO
Enquanto muitas crianças passavam as tardes brincando, Antônio Cunico Junior acompanhava o pai no Cemitério Municipal de Campo Largo. Estudava pela manhã e, à tarde, seguia com Antônio Cunico para o trabalho. Enquanto o pai atendia as famílias, ele brincava com as ferramentas e observava a rotina do local. O que para muita gente poderia parecer um ambiente incomum fazia parte do seu dia a dia desde a infância.

Antônio Cunico e Junior Cunico.
Junior conta que nem consegue lembrar quando começou a ajudar. As primeiras recordações são justamente desse convívio diário e dos conselhos que ouvia enquanto acompanhava o pai. Mais do que ensinar o trabalho, ele fazia questão de mostrar como as pessoas deveriam ser tratadas em um dos momentos mais delicados da vida: "ele sempre falava para fazer as coisas certas e tratar as famílias com educação e carinho na hora da perda de um familiar."
Com o passar dos anos, a brincadeira deu lugar ao trabalho. Sem perceber, Antônio passou a dar continuidade à profissão e à história construída pelo pai. "Numa brincadeira de criança virou meu trabalho. Hoje continuo a história que ele construiu."
Ao longo das décadas, ele viu Campo Largo crescer e a rotina do cemitério mudar. A população aumentou, o número de atendimentos também e o trabalho passou a exigir ainda mais organização. Apesar dessas transformações, uma coisa nunca mudou: a forma de acolher quem chega ao local.
Mais do que realizar sepultamentos, Antônio explica que o trabalho exige sensibilidade para orientar e acompanhar famílias em um momento de despedida. É justamente nesse aspecto que ele procura seguir os ensinamentos recebidos ainda na infância.
"O aprendizado que ele sempre deixou foi ter respeito e educação com as famílias. É isso que eu tento seguir todos os dias”, conta.
Hoje, ao olhar para a própria trajetória, ele diz que o maior orgulho não está apenas em exercer a mesma profissão, mas em manter vivos os valores que aprendeu dentro de casa.
"Tenho orgulho da história que meu pai construiu e quero continuar seguindo seus exemplos."
UM LEGADO QUE VAI ALÉM DA PROFISSÃO
Embora tenham escolhido a mesma profissão dos pais, Tiago, Cássio, Sylvio e Antônio construíram trajetórias próprias. Em comum, todos precisaram adaptar o trabalho às transformações do tempo.
As mudanças mostram que dar continuidade a uma profissão não significa repetir exatamente o mesmo caminho. Cada um precisou encontrar seu próprio espaço e responder às necessidades do tempo em que vive. Ainda assim, os quatro descrevem a escolha pela profissão de forma parecida: ela não surgiu de uma expectativa da família, mas da convivência diária com os pais. Em comum, também compartilham a admiração por quem lhes apresentou a profissão pela primeira vez e o orgulho de hoje dividir o mesmo ofício.
Por: Duda Boaron
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